sábado, 17 de dezembro de 2011

Depois do nine eleven, o serviço de bordo, piorou!

Costumo acompanhar o que o pessoal de bordo escreve na internet. É uma maneira de saber como pensam os que vivem profissionalmente a 35 mil pés fora das cabines dos aviões. Uma assistente de bordo americana, autora de um blog, com o seu nome próprio, Heather Pole , escreveu um artigo para a CNN, no qual explicou o que no seu ponto de vista, mudou na mentalidade dos seus colegas de trabalho desde o dia em que quatro tripulações completas viraram reféns e depois cordeiros de sacrifício em nome da Jihad patrocinada por Osama Bin Laden.

Heather Pole, tem uma visão, que para mim, é nova em relação ao assunto. Para começar, não fala da sua actividade com uma atitude policial, como vários outros comissários americanos - e tive oportunidade de presenciar isso na prática - passaram a ostentar. Isto porque uma das reacções aos atentados nos EUA foi dinamitar o conceito de justiça ao estender o papel de xerife de bordo ás assistentes e aos comissários, graças ao famigerado Patriot Act.

Por essa regulamentação, qualquer distúrbio a bordo pode ser interpretado pela tripulação, munida de autoridade policial, como atentado à segurança de vôo, e consequentemente uma ameaça à segurança nacional. Isso equivale para os incautos passageiros, a maioria bêbados ou intoxicados pela combinação de remédios para dormir com álcool e a altitude, três meses no isolamento de uma qualquer cadeia de Bangkor, no Maine - boa parte dos casos foram "atirados" para lá, por ser um local muito isolado - e um julgamento severo e kafkiano.

Já aqui relatei a história de uma passageira, presa e sentenciada, que teve os dois filhos pequenos entregues para adopção depois de discutir com a assistente de bordo, que a advertiu por ter dado uma palmada num deles. Ficou presa numa cadeia da costa oeste, enquanto os dois meninos, depois de enviados para uma casa correccional em Honolulu, Havaí, foram dados pela Justiça a outra família. Tudo isto ocorreu porque as crianças foram advertidas pela mãe por derrubarem o copo de bebida que ela tinha na mão. A assistente, interferiu e ouviu um "não se meta". Poderosa, a assistente de bordo, liquidou a ameaça à hierarquia de bordo e a família de uma vez.

Heather Pole escreve que, desde os ataques, passou a concentrar-se nas descolagens e no que poderia fazer para evitar que terroristas a subjugassem. Garrafas de vinho partidas, café quente atirado á cara, assentos usados como escudo, tudo isso fazia parte do plano B contra a Al Qaeda - um medo, aliás, justificável se considerarmos que o comando liderado por Mohamed Atta há dez anos tomou quatro aviões com o uso de singelas facas Olfa. Deu certo porque parte do treino dos terroristas, em bases no Afeganistão, consistia em degolar ovelhas usando o mesmo acessório.

A assistente, relata a ocasião em que reparou num passageiro que ia e vinha algumas vezes ao W.C. com um saco da McDonald´s nas mãos. Reportou a suspeita e, após a aterragem, o sujeito foi preso. Não se sabe se ia fazer algo ou não, mas havia comprado apenas a passagem de ida, em dinheiro, e tinha se matriculado num curso de pilotagem na Flórida - tal e qual Atta e os seus comandados fizeram. Pole, destaca isso como uma espécie de perda de inocência e conta ainda que, no curso, em vez de aprenderem como servir bem, os futuros tripulantes, agora recebem lições de caratê. Suspeita razoável é a palavra-chave.

Se formos observar esse mesmo efeito fora dos EUA, a distensão foi maior nesses dez anos. Há cuidado com a segurança, mas ela é menos paranóica e obsessiva do que a que enfrentamos em deslocamentos para os USA. Recentemente, ao seguir para Miami, tive o passaporte verificado cinco vezes antes do embarque: antes do check in, no próprio check in, na Polícia Federal, no acesso á "manga" de embarque, dentro da mesma, antes do avião - nesse caso por pessoal de segurança independente tanto da companhia quanto do aeroporto. Em Junho, ao seguir para Londres, foram só três verificações. Não é desleixo, apenas precaução na medida.

Os atentados atingiram fundo a aviação americana, embora dados recentes da Iata apontem mais um ano de crescimento, em torno de 7%, desse mercado. A assistente afirma, no entanto, que a rentabilidade melhorou à custa de uma degradação nas condições de trabalho, com mais sobrecarga e menos descanso. Para os passageiros, o serviço piorou.

Por: Marcelo Abrósio

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