segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O Lockheed L1649A Super Star, vai voltar a voar.

Falar de máquinas antigas é um tipo de saudosismo que só me permito cultivar quando uma dessas maravilhas ganha o direito de voar novamente. É o que está acontecendo nos EUA, onde técnicos aposentados convocados pela Lufthansa Technik restauram um raríssimo Lockheed L1649A Super Star. A aeronave é parte de um lote com três unidades dos Constellation adquirido em um leilão na América, em 2007. Os outros dois exemplares, por estarem em pior estado, serão totalmente canibalizados no processo de recuperação.

A restauração de um exemplar raro para voar é complexa e no caso deste Lockheed a previsão é a de que o trabalho só termine de aqui a muitos meses. É preciso desmontar cada item, checar o estado de todas as empenas mais críticas, procurar sinais de fadiga de metal, substituir todos os cabos que conduzem fluidos hidráulicos, trocar motores eléctricos e geradores, enfim dar uma de detective na busca dos estragos do tempo. Isto sem falar na tarefa mais complicada, que é a de encontrara, partes que desapareceram.

O Connie da Lufthansa, do qual apenas 44 exemplares foram produzidos pela Lockheed, vai voar em 2010. A aeronave foi a primeira usada pela companhia nos vôos de longa distância, transatlânticos, a partir de 1958. Podia cruzar o Atlântico sem reabastecer e levava 99 passageiros, 32 numa classe especial, a Senator. Reinou em absoluto até o início da era dos jatcos, com os Comet 4, em Outubro de 1958.

Entre outros pontos de destaque, o L-1649A era impulsionado por motores de pistão da Curtiss Wright considerados o estado-da-arte em desenho mecânico e eficiência com 3.400 hp. Os restauradores lidam com o desafio de recuperar 14.439 componentes para cada um dos quatro motores. Esta parte do trabalho é realizada pela Anderson Aeromotive, empresa certificada pela FAA para restaurar propulsores que serão usados em vôo. Embora seja quadrimotor, o Super Star terá seis unidades recuperadas, duas como reserva, até ao fim deste mês. O importante é que partes internas críticas como os pistons e anéis são de fundições novas.

O processo tem ainda dificuldades adicionais relativas à uma conversão necessária do L-1649A, que na sua fase final de operação era cargueiro. A substituição das grandes portas de carga por acessos para passageiros tornou-se um desafio dada a necessidade de uma homologação para a licença de vôo. O maior obstáculo era a estrutura na qual a porta de embarque era presa, e cujo acesso só é possível com o desmantelamento do sistema. Os restauradores tentaram obtê-la de um Constellation L-1049 civil pertencente a uma família da Bretanha. Mas a venda não avançou, já que os donos franceses decidiram transformar o avião numa discoteca. A solução acabou vindo com a ajuda da South African Airways, que permitiu a desmontagem de uma aeronave do próprio acervo para que os engenheiros pudessem projectar uma réplica exacta.

Tendo a estrutura sido refeita, a busca por portas originais levou a outro L-1649A, este da finada TWA, transformado em cargueiro após três anos de uso em linha comercial. As quatro portas então foram retiradas e substituídas pelas de carga. Essas que saíram, e que ficaram guardadas, serão instaladas no Super Star de 51 anos de idade e também servirão como molde para a produção de réplicas perfeitas.

Na parte interna, o grande desafio é o cockpit. Em 50 anos não só os aviões avançaram muito, como o tráfego aéreo também cresceu. Os instrumentos exigidos para a cabine do Super Star levou os projectistas a não seguirem a configuração original, optando pela que é a mais usual, com monitores centrais multifunções dedicados aos parâmetros de vôo e de funcionamento dos motores, integrados a diferentes displays de navegação – em 1957 não havia GPS, só rádio e muita régua de cálculo. Para não deixar os futuros comandantes sem um resquício do passado, vários instrumentos analógicos foram aproveitados, porém como parte de um cenário.

Por: marceloambrosio, no JBlog Slot