terça-feira, 16 de junho de 2009

Por Marcelo Ambrósio, in JBlog Slot.

Recebi essas imagens ontem e decidi posta-las para mostrar como os aviões são confiáveis, mesmo tratando-se dos Airbus, cuja filosofia de pilotagem primária pelo computador tem sido questionada - e com alguma razão, dadas as circunstâncias - depois do desastre com o A330 da Air France.

Neste caso, tive conhecimento do incidente por descrição de colegas que são comandantes, mas as imagens traduzem muito melhor a dimensão da emergência que essa tripulação enfrentou numa rota interna, a uma altitude muito inferior à que estava o AF447.

É importante mostrar isto para reforçar também o facto de que os acidentes aeronáuticos acontecem por uma combinação de factores, nunca por uma única causa e que mesmo em condições muito adversas as aeronaves ainda têem condições para completar o percurso ou realizar uma aterragem de emergência.

No A320 das fotos, a sorte foi ter enfrentado um CB abaixo do limite de cruzeiro. O voo era o 4312, da TAM, que descolou de Curitiba para São Paulo, Congonhas. A data exacta não sei, mas sei que o caso ocorreu em Fevereiro do ano passado.

Ao chegar a 9 mil pés, o Airbus atravessou um CB com formação de gelo. Louve-se também a perícia dos pilotos, já que são raros os incidentes com esse nível de estrago nos quais o resultado é tão positivo.

O A320 prefixo PT-MZV levava a bordo 138 passageiros e seis tripulantes. Só a perda do radome, a tampa dianteira onde está localizado o radar da aeronave, já configuraria uma situação problemática. Sem ele, os pilotos perderam as informações sobre as outras aeronaves em rotas próximas e passaram a voar guiados pelo controle de tráfego aéreo. O incidente ocorreu cinco minutos após a descolagem. O voo foi até Guarulhos.

Apenas parte da tampa do radome ficou presa nas dobradiças. O prato, que integra o conjunto do radar, ficou retorcido pelo vento e marcado pelas pedras de gelo que colidiram com a aeronave. É importante frisar que o desempenho aerodinâmico também foi afectado pela ausência do cone dianteiro.

Perante esta situação, a tripulação foi consultada, pelos controladores, no sentido de relatarem da capacidade de continuarem o voo. Mas como o controle do avião continuava inalterado, receberam instruções para seguirem até São Paulo, aonde as condições de aterragem eram melhores.

A perda do radome afectou o radar, atingiu o dreno de água e destruiu o "táxi light", luz de suporte sob a asa que é usada quando a aeronave se desloca em terra para a descolagem ou para a manga de embarque de passageiros.

Ocorreram ainda mossas nas bordas dos dois motores - sorte não terem empenado as palhetas das turbinas, o que as poderia ter paralisado. Bordos de ataque do profundor e das asas ficaram igualmente amassadas.

Se a falta do cone foi preocupante, pelo estrago que poderia ter provocado na turbina, mais ainda é o estado dos vidros da cabine, estilhaçados pelo impacto das pedras de granizo. O impressionante é que a estrutura resistiu ao impacto, apesar da força das pedras, que deixou inoperante o piloto automático, um equipamento essencial neste tipo de avião, aonde os pilotos efectivamente controlam a aeronave apenas nos momentos iniciais após a descolagem e a 500 pés do toque na pista na hora de aterrarem.

Os danos não se limitaram à frente do Airbus. O gelo descascou ou amassou partes no bojo do avião, e chegou a amolgar o bordo de protecção das asas e dos estabilizadores traseiros, expondo a chapa amassada pelo impacto, mas que resistiu à pressão aerodinâmica do voo mesmo sob condições adversas.

Aliás, a imagem do vidro da cabine vista de dentro deixa clara a situação com a qual os pilotos tiveram de enfrentar, sobretudo pela aproximação e aterragem, apenas por instrumentos, sem qualquer tipo de visão.

Faltou pouco para que houvesse uma despressurização traumática da cabine. A 8 mil pés não seria tão desastroso como a que atingiu o voo AF447, da Air France, mas ainda assim causaria uma série de problemas.

Internamente, fora do cockpit, a violência destruidora do impacto do granizo, só foi realmente percebida, por quem tentou usar o lavabo dianteiro. O lavatório traseiro ficou com tudo fora do lugar, como podem verificar na última foto.

As imagens, falam por si. Vejam:

A chegada do PT-MZV

Muita gente não acreditou no tamanho do dano

Outro ângulo

Reparem o parabrisas

Mais danos

Marcas da ação no granizo nas asas

Bordo da asa

Vidros trincados

sem descarga

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