sábado, 6 de junho de 2009

Os Riscos da Travessia do Atlântico

A aviação é considerada segura, mas não isenta de riscos. E a travessia aérea sobre o Oceano Atlântico para o continente europeu é um exemplo de que há factores com os quais os passageiros e tripulações não contam. Passageiro habitual da rota Rio–Paris, o escritor Paulo Coelho lançou ontem um alerta no seu Twitter a respeito da possibilidade de os pilotos que utilizam as quatro rotas diferentes, sofrerem pressões de companhias aéreas para evitarem desvios de rota que possam aumentar o custo da operação. O escritor referia-se ao facto de o voo AF447 não ter desviado a rota, apesar da indicação de mau tempo.

“Há dois anos, durante a Copa do Mundo, eu estava no lobby de um hotel na Alemanha conversando com dois pilotos. Eles levantaram o tema: muitas vezes evita-se contornar as CBs (Cumulus Nimbus, as temíveis nuvens de tempestades) para economizar combustível. Acredita-se que o avião resista. Normalmente resiste”, diz Coelho, em nota ao blog de Mauricio Stycer.

O diretor de segurança do Sindicato Nacional dos Aeronautas,,(Brasil) Carlos Camacho, diz que não há denúncias, mas confirma que existe uma pressão implícita das empresas aéreas nacionais para evitar a alteração de rotas, que os pilotos seguem mais por complacência do que por obrigação. No caso das companhias francesas, ainda segundo Camacho, como as entidades sindicais actuam de uma forma vigilante e exigente no cumprimento das normas de voo, essa pressão dificilmente ocorreria.

Análise é do piloto.
Para o director de segurança e os pilotos consultados, o comandante é que faz a análise de cada situação, de acordo com a sua convicção. É o chamado Pilot Discreption.

"Sabemos que existe a pressão, mas ela não é declarada" – disse Camacho, antes de fazer alusão a um incidente similar relatado por outro comandante. No caso, um piloto brasileiro procurou o sindicato anteontem para contar que havia passado pela mesma situação de “forte turbolência” na região do acidente, e que se livrou um minuto depois da avaria geral ter ocorrido, (com apagamento total dos painéis) porque o problema se deu já na saída da turbulência. Se fosse no início da tempestade ou na área de turbulência, segundo ele, poderia ter ocorrido uma tragédia. O avião era do mesmo modelo do usado no voo AF447.

Outra característica da travessia transatlântica é a possibilidade de encarar uma tempestade mais violenta na área do Equador, conhecida com Zona de Convergência Intertropical. Tormentas são comuns esta época do ano ali, mas podem ganhar força nunca vista. Radares de bordo, por mais desenvolvidos que sejam, dão indícios ao cockpit mas não são precisos para o julgamento, por exemplo, da espessura da massa de mau tempo adiante.

As ondas emitidas encontram a precipitação interna nos CBs e as reflectem como barreira. A leitura correta depende da combinação desse dado com outros conhecimentos e a habilidade na percepção visual a partir do clarão dos raios. No caso do Airbus, ocorreu a coincidência de a rota programada coincidir com a área de maior intensidade no momento da passagem. Os CBs podem ter chegado a 15 km de altitude. O Airbus, voava a 11 mil metros de altura.

Uma terceira circunstância envolvendo a travessia é a forma como se escalam as tripulações.
Quando se usa o sistema de escala de substituição "on board", dois comandantes e dois copilotos conduzem o avião durante o percurso, alternando horários de trabalho e de descanso.
No caso do AF447, o comandante Marc Dubois, 58 anos, 11 mil horas de voo, 1.700 no A330, dividia o manche com dois copilotos, um deles com 6.600 horas e 2.600 na mesma aeronave e o outro com 3 mil horas, 800 no A330.

De acordo com profissionais de aviação com muito tempo nessa travessia, a escala Composta faz com que, às vezes, o comandante mais experiente assuma a descolagem e, depois do jantar, passe para um dos co-pilotos, denominado Cruise Captain – capitão de cruzeiro – e vá descansar no “sarcófago”, logo atrás da cabine.

Com isso, em situações críticas, o oficial com maior capacidade pode não ser quem está nos controles. Nessa tragédia, é uma informação que dificilmente se terá.
By: Marcelo Ambrósio-JBlo Slot

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