quarta-feira, 3 de junho de 2009

Dois Airbus da TAP, na mesma rota do avião acidentado da Air France

O Airbus da Air France desapareceu numa zona onde os hemisférios norte e sul se chocam provocando nuvens gigantes. Jorge da Silva pilotou um avião da TAP momentos antes. Muitas nuvens e turbulência, tal como em outros dias. De noite, serviu-se do radar para se desviar dos obstáculos.

Jorge da Silva, piloto da TAP, passou pela mesma zona que o avião da Air France antes deste ter desaparecido dos radares. E, como em outras vezes, contornou as nuvens de gelo gigantes, da mesma forma que um condutor foge dos buracos numa estrada. Muitas nuvens, turbulência, mas a situação atmosférica nem era demasiado complicada. É pior durante o Verão Astral, entre Fevereiro e Abril.

Aquela é a forma simples do comandante da TAP explicar a navegação na zona de convergência intertropical, por cima do Oceano Atlântico, entre o Brasil e o Senegal, onde o aparelho francês desapareceu. É uma situação complicada, mas para "a qual os pilotos são constantemente preparados", sublinha. E viajam informados.

"Antes de qualquer saída, recebemos os planos de voo e as cartas meteorológicas, onde tudo está sinalizado. O acidente não se deu porque estavam lá estas nuvens. Diariamente, passam dezenas de aviões por aquela zona, obviamente turbulenta, e o que temos a fazer é desviar o aparelho. As nuvens podem provocar danos no avião, mas nunca provocaria uma queda", defende Jorge da Silva.

São as grandes correntes de massa dos dois hemisférios, Norte e Sul, que se chocam naquela zona do Equador, provocando nuvens de gelo gigantes.

A alternativa é contornar esses obstáculos e, caso não seja possível, desviar a rota. Jorge da Silva já teve de desviar 20/30 milhas. Mas conhece quem tenha feito um desvio de 200 milhas.

"Fiz essa rota numa média de três vezes por mês. Tem algumas dificuldades, mas não é uma rota perigosa e, em velocidade cruzeiro, um avião tem mecanismos para evitar os obstáculos", diz Paulo Dias, também comandante da TAP, actualmente no médio curso. Explica que as situações mais complicadas surgem numa aterragem em que há mau tempo.

Jorge da Silva faz regularmente as rotas brasileiras. Domingo fazia a ligação de Belo Horizonte a Lisboa, no mesmo tipo de aparelho do Air France, um Airbus 330. E foi comunicando com o comandante do avião que fazia a ligação de São Paulo a Lisboa. Também este sem registo de anomalias.

No voo 191 da TAP, que saiu de Lisboa de manhã em direcção a São Paulo, Brasil, viajou um casal brasileiro, Leonardo e Andressa Napp, depois de uma lua-de-mel de três semanas em Portugal. Contaram ao O Globo que houve um "apagão" de uma hora a hora e meia. "Foi um susto. Nunca tinha vivido uma situação destes e estou acostumado a viajar desde criança. Por mais de uma hora a tripulação tentou ligar o sistema computadorizado que controla os monitores de televisão a bordo e não conseguiu", relata Leonardo.

O porta-voz da companhia aérea portuguesa diz que se tratou de "um bloqueio do sistema de entretenimento, mas não teve a ver com as condições atmosféricas ou uma avaria no aparelho".

O presidente da Associação Portuguesa de Pilotos de Linha Aérea, João Durão, sublinha que os aviões têm aparelhos de substituição e um radar meteorológico com grande capacidade de visibilidade.

Mas há situações que podem dificultar a navegação, nomeadamente fazer o percurso durante a noite.
"De dia, além do radar temos a nossa própria visibilidade. A maioria das companhias faz o voo para Sul durante o dia por isso mesmo", conta. O máximo que desviou da rota foram 50 milhas.

Às 04.00 também não é uma altura do dia em que uma pessoa terá as suas capacidades a 100%. Esse é um factor que também poderá ter contribuído.
"Mas são tudo especulações, temos poucos dados", sublinha João Durão.

Céu Neves - Globo

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