quarta-feira, 13 de maio de 2009

TAP Substimou as companhias "Low Cost"

O que ocorreu com a Alitalia é a imagem do que poderá vir a acontecer na resto da UE, pois é muito provável que o mercado seja dominado pelas ‘Low Cost’ e o que está a verificar-se na rota Lisboa-Funchal é um exemplo real de como a TAP não pode competir com o modelo de gestão das companhias de baixo custo.

Foi anunciado, pela agência noticiosa Lusa, um primeiro balanço da actividade da Easyjet, desde que esta empresa de aviação de baixo custo iniciou o seu serviço na rota Lisboa-Funchal, em 27 de Outubro de 2008, com dois voos diários.

Passados seis meses, o número de passageiros transportados pela Easyjet, atingiu quase 100 mil passageiros, cerca de 16,6 mil por mês, com uma taxa de ocupação de 93%. Convém recordar que a rota Lisboa-Funchal era explorada exclusivamente pela TAP e SATA, tendo estas empresas transportado, no ano anterior, cerca de 800 mil passageiros, sendo a TAP responsável por 500 mil.

A TAP e a SATA devem ter os valores exactos das perdas de receitas e passageiros, devido à nova concorrência, na rota Lisboa-Funchal; contudo, através dos valores de tráfego publicados pela ANA Aeroportos, é possível ter uma ideia aproximada do que terá ocorrido.

No mês de Março de 2009, foram transportados, na rota Lisboa-Funchal, 64 mil passageiros e a variação, relativamente a 2008, foi de –0,6%, ou seja, o tráfego é muito semelhante ao do ano anterior. Significa isto, que houve uma apreciável transferência de passageiros da TAP e da SATA para a Easyjet, uma vez que esta empresa transporta, por mês, uma média de 16,6 mil passageiros, com uma taxa de ocupação de 93%.

Teoricamente, 26% do mercado terá sido transferido para a nova concorrência mas mais importante ainda, foi a apreciável quebra nos preços dos bilhetes. Antes da liberalização, uma viagem Funchal-Lisboa-Funchal, para residentes na Madeira, custava 222,63 Euros e para não residentes 431,63 Euros. A Easyjet, quando entrou neste mercado, ofereceu o mesmo serviço a partir de 52 Euros ida e volta.

Caso seja feita a média ponderada, relativamente aos preços dos bilhetes para residente e não residente, no ano anterior e multiplicado pelo tráfego obtido pela TAP - em 2008 - que foi de 500 mil e comparando com os respectivos valores de tráfego e custo dos bilhetes, desde que a nova concorrência existe, facilmente se conclui que a transportadora nacional irá perder várias dezenas de milhões de Euros, em receitas, só na rota Lisboa-Funchal.

Muitas pessoas julgam que estas empresas são uma moda passageira e que irão desaparecer brevemente. Tal ideia não corresponde à verdade porque este novo negócio está a ser rentável para as firmas mais dinâmicas e bem geridas. O modelo de gestão adoptado pelas empresas de baixo custo é muito mais eficiente que o das companhias de voos regulares. Um dos factores que contribui para uma maior competitividade reside no facto das ‘Low Cost’ utilizarem novos aviões e muito menos pessoal. Nos próximos anos, é provável que os novos aparelhos reduzam o consumo em 40%, o que será um factor determinante para uma empresa ser competitiva. Actualmente, já foram encomendados centenas de novos aviões pelas companhias de ‘Low Cost’ aos dois maiores construtores: Airbus e Boeing. À medida que o preço do petróleo aumenta, as empresas de voos regulares mais dificuldade irão enfrentar relativamente às ‘Low Cost’. No final de 2008, estas empresas já eram responsáveis por 31,4% do mercado nacional.

Em 2008, a TAP teve prejuízos de perto dos 300 milhões de Euros. Este valor é insustentável e certamente vai obrigar à reestruturação da empresa, provavelmente após as próximas eleições legislativas, uma vez que a Comissão Europeia, pelas actuais regras de concorrência, não permite que o Governo ajude a transportadora nacional.

Quando foram apresentados os resultados de 2008, foi dito que, em 2009, a TAP voltaria aos lucros. Infelizmente, tal situação dificilmente poderá suceder devido à actual crise económica e por causa da forte concorrência das companhias aéreas de ‘Low Cost’ em que o exemplo dado, relativamente à rota para a Madeira, é bem esclarecedor.

O argumento dos custos dos combustíveis não é suficiente, uma vez que as restantes companhias aéreas também utilizam Jetfuel.

A Alitalia, quando chegou a uma situação em que o prejuízo atingia um milhão de Euros, por dia, teve que ser reestruturada, também devido à concorrência das ‘Low Cost’. A companhia italiana foi obrigada a eliminar as rotas não rentáveis e a reduzir os custos, de modo a permitir uma diminuição nos prejuízos.

O que aconteceu com a Alitalia também poderá ocorrer com a TAP, sobretudo nas rotas entre Portugal e o resto dos países da União Europeia (UE). Para se ter uma ideia da diferença de produtividade, basta dizer que a TAP tem 684 passageiros por trabalhador, enquanto a Ryanair tem 10.050 e, na Easyjet, esse valor é de 6300. Nos últimos meses, a TAP já cancelou milhares de voos devido à forte concorrência das ‘Low Cost’ e esta situação poderá agravar-se ainda mais.

A TAP, após ter adquirido a Portugália por 140 milhões de Euros, vai ter ainda que pagar elevadas indemnizações aos trabalhadores já despedidos. Provavelmente, a TAP, no futuro, terá que ser reestruturada e dividida em TAP-América; TAP-África e TAP-Europa, adoptando o modelo de gestão mais conveniente para cada mercado.
By: Rui Rodrigues, in Publico - http://www.maquinistas.org/

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