domingo, 10 de maio de 2009

"Jet Lag"- Atinge 90% dos Passageiros

Vómitos e pressão nos ouvidos são outros dos problemas mais frequentes entre os passageiros. Os mais graves são a formação de coágulos no sangue, que surgem num passageiro em cada 4656. Médicos aconselham a tomar precauções.

"Sobrevivi quase por milagre." O desabafo é de Maria José Sobreira, de 56 anos, que depois de uma viagem de seis horas até Atenas começou a sentir-se mal. "Sentia um calor insuportável, tinha falta de ar e uma aceleração cardíaca anormal", conta a professora do ensino básico. Já no hospital, entre a vida e a morte, diagnosticaram-lhe uma embolia pulmonar - obstrução das artérias do pulmão devido a coágulos que se formam nos membros inferiores e que sobem.

A formação de coágulos sanguíneos é um dos problemas mais graves que podem afectar os passageiros de avião. Mas há muitos outros. Jet lag, tonturas, vómitos e otites provocados pela variação da pressão.

Segundo um estudo holandês, publicado na revista PLoS Medicine em 2007, os coágulos sanguíneos formam-se num passageiro em cada 4656. "Estas situações são bastante frequentes nas viagens de avião e chamam-se trombofobites, ou seja, inflamações das veias e formação de coágulos", garante Manuel Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, lembrando que ocorrem com mais frequência em mulheres que tomam a pílula e fumam, nas pessoas com varizes e nos obesos.

No entanto, o cardiologista João Gorjão Clara, do Hospital Pulido Valente, assegura que a possibilidade de os coágulos originarem embolias pulmonares é muito reduzida, mas pode provocar morte súbita. O especialista recupera um estudo norte-americano de 2001 que indica que a relação de casos de embolias pulmonares a bordo é de cinco em cada milhão de passageiros (ver caixa).

Contactadas pelo DN, as companhias aéreas portuguesas não divulgaram números nacionais sobre os problemas mais comuns a bordo.

Para evitar situações como a de Maria José, que sofreu a embolia pulmonar há cinco anos, o cardiologista Gorjão Clara aconselha os passageiros de viagens longas a levantarem-se de hora a hora, a andarem no corredor, a flectir os joelhos, a colocarem-se em bicos dos pés e a fazerem regularmente inspirações profundas, "de forma a regularizar a velocidade do sangue e o seu retorno ao coração".

Manuel Carrageta aconselha ainda a beber muitos líquidos, a evitar bebidas alcoólicas e café e usar meias ou calças apertadas durante os voos. Agora, sempre que vai viajar, a professora usa meias de descanso.

Há outros problemas de saúde que podem surgir a bordo, uns mais comuns do que outros, entre eles, o pânico de viajar num avião (ver texto ao lado). Já Ricardo Carvalho, de 21 anos, sofre sobretudo com a tensão nos ouvidos, devido à variação da pressão ao descolar e aterrar. "Tenho muitas dores e parece que o tímpano vai rebentar", refere o estudante de Biologia. Hoje em dia tenta minimizar o desconforto mastigando uma pastilha elástica, mas quando era criança não era isso que resultava. "Lembro-me de a minha mãe me ter criado um aparelho original, que levava sempre na carteira quando íamos visitar a nossa família à Venezuela. Com dois copos de iogurte fez um género de head-phones. E o facto é que com isso nos ouvidos suportava melhor a dor", diz.

O médico responsável pelo Serviço de Saúde do Aeroporto de Lisboa garante que as lesões e otites médias (também chamadas de barotraumatismos) ou perfurações do tímpano são frequentes entre os profissionais de cabina. "Chegam-nos alguns casos e acontecem sobretudo quando se dá uma variação brusca da pressão durante a aterragem", afiança João Santa Marta. "Quando algum profissional está constipado ou com obstrução nasal, não o aconselhamos a viajar."

Ana Margarida Gonçalves, de 25 anos, diz que são as tonturas e náuseas que mais a incomodam. "A única vez que viajei foi para Londres há cinco anos. Nunca mais consegui entrar num avião porque dessa vez passei o tempo todo a vomitar", diz, associando o mal-estar ao nervosismo.

"O enjoo está muito relacionado com a ansiedade", confirma o neurologista Nuno Pedro Ribeiro. "Em pessoas saudáveis, a pressurização da cabina a cinco ou oito mil pés é suficiente para respirarem bem. Mas se a pessoa estiver cansada terá menos resistência à descida da pressão atmosférica e terá tendência a ter tonturas."

Por outro lado, calcula-se que cerca de 90% dos passageiros em viagens de longo curso sofram dos sintomas do jet lag. A maioria das pessoas sente fadiga durante pelo menos cinco dias, mas há também quem sofra de desorientação, desidratação e insónias. "Tem tudo a ver com o nosso ritmo biológico", sublinha o médico João Santa Marta. "Deve haver uma preparação anterior ao voo, comer apenas refeições leves e adequar as horas de sono ao país de chegada", defende Nuno Pedro Ribeiro.

Os efeitos do álcool também são potenciados pela altitude e pela descida da pressão atmosférica, que só é parcialmente compensada pela pressurização da cabina, originando dificuldade em absorver o oxigénio e diminuição acentuada de reflexos. Na Grã-Bretanha, 35% dos incidentes a bordo devem-se ao álcool.
por CATARINA CRISTÃO, no JN

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