quinta-feira, 16 de abril de 2009

Ser Assistente de bordo,no .Golfo Pérsico

Marwa Abdel Aziz Fathi ria consigo mesma enquanto olhava para seu broche em forma de asa no bolso esquerdo de seu uniforme cinza, depois para o salão, para as dezenas de assistentes de bordo da Etihad Airways, que conversavam e comiam canapés ao redor dela.

Era o dia de formatura na Academia de Treino da Etihad, aonde a companhia aérea nacional dos Emirados Árabes opera um curso de formação de sete semanas para novas assistentes de bordo. No andar de baixo ficam as salas de aulas aonde Fathi e outras alunas praticaram o serviço geral de bordo em "mok-ups", modelos de aviões, em tamanho real, e treinaram na piscina onde aprendem como evacuar passageiros em caso de aterragem na água. Além de seu visível orgulho, Fathi, uma egípcia de 22 anos, estava encantada por estar ali.

“Nunca em toda minha vida pensei que fosse trabalhar no estrangeiro”, disse Fathi, que era estudante universitária no Cairo quando começou á procura de anúncios no jornal que oferecessem trabalho a jovens egípcias, para trabalhar em companhias aéreas baseadas no Golfo Pérsico.

“A minha família pensou que eu era louca. Mas algumas famílias, nem permitem esse pensamento.”

Há uma década, mulheres árabes solteiras como Fathi, a trabalharem fora de seu país, eram muito raras. Mas, assim como rapazes dos países árabes pobres, correram para os estados do Golfo Pérsico ricos em petróleo em busca de trabalho. Aumentou o numero de mulheres que estão a fazer o mesmo, afirmam sociólogos, apesar de não haver nenhuma estatística oficial de quantas são.

Assistentes de bordo, tornaram-se o rosto da nova mobilidade para algumas jovens mulheres árabes, assim como uma questão de imperiosa de afirmação social e fascinação.

O dormitório das assistentes da Etihad aqui, assemelha-se muito aos blocos de escritório, estilo década de 70, presentes em abundância na cidade. Porém, há três seguranças no andar térreo, um livro para registo de entradas e regras rígidas em relação a visitantes do sexo oposto. As assistentes, estão sob um controle rigido, e são constantemente alertadas, para o facto de o seu comportamento, se reflectir na reputação da Etihad. Aquelas que tentam, introduzir, visitas masculinas nas suites de dois quartos, sobriamente mobiladas, e compartilhadas com outras mulheres, podem ser expulsas, e até deportadas.

Em pleno renascimento islâmico em todo o mundo árabe, liderado em grande parte pelos jovens, estados do golfo como Abu Dhabi – que oferece liberdades e oportunidades quase inimagináveis noutros lugares do Oriente Médio – tornaram-se um lugar improvável de refúgio para algumas jovens árabes. Muitas afirmam que a experiência de viver de forma independente e trabalhar duro por salários mais altos, mudou para sempre as suas ambições e a sua confiança, apesar disso, poder levar a um doloroso sentimento de alienação de seus países e famílias.

A praticamente qualquer hora do dia ou da noite, há dezenas de jovens com malas de rodinhas idênticas, esperando no lobby do dormitório para serem levadas para trabalhar nalgum vôo da Etihad.

Usam chapéuzinhos elegantes com leves lenços que sugerem uma hijab, a cobertura para a cabeça usada por muitas mulheres muçulmanas. Como colegiais em época de provas, todas tagarelam, graciosamente sobre terem dormido pouco.

Há, votos de parabéns ou pena, quando as mulheres se inteiram sobre os voos escalados para as amigas. Voos longos para lugares como Toronto e Sydney – onde as pausas podem durar muitos dias, os hotéis são confortáveis e o dinheiro dado por dia pela companhia aérea para cobrir despesas com alimentação e itens de primeira necessidade é generoso – são cobiçados.

Já os vôos curtos para lugares como Khartoum, Sudão, são temidos. Mais de quatro horas de trabalho seguidas de abastecimento, uma nova entrada de passageiros, um exaustivo vôo nocturno de volta para Abu Dhabi, e, finalmente, o transporte de autocarro de volta para o dormitório, com os seus guardas vigilantes.

Apesar do número crescente de mulheres que se mudam para países do Golfo, os padrões de migração de mão-de-obra dos últimos 20 anos deixaram os Emiratos com uma razão homem/mulher mais distorcida do que qualquer lugar do mundo; na faixa etária de 15 a 64 anos, existem mais de 2,7 homens por cada mulher.

As assistentes de bordo da Etihad são uma presença, tão popular no bar do modesto hotel de Abu Dhabi que a presença delas é motivada por frequentes noites ,“ladies free”, com descontos exclusivos para o pessoal de bordo. É quase impossível para uma mulher sem véu de 20 e poucos anos ir a um shopping ou mercado em Abu Dhabi sem ser interpolada regularmente, por estranhos sorridentes, questionando-a, se é assistente de bordo.

Apesar das aparências, explicou uma assistente egípcia – que pediu para não ser identificada, pois não foi autorizada pela Etihad a falar com a imprensa –, sexo e namoro são temas tabús para a maioria das jovens árabes que vêm trabalhar nos Emiratos.

Algumas, lidam com a sua nova vida longe de casa tornando-se, quase como freiras, recatadas e muçulmanas praticantes, declarou a assistente, enquanto que outras rapidamente, "caiem",nos braços de homens, errados.

“Em relação às mulheres árabes que vêm trabalhar aqui, há dois tipos”, explicou a egípcia.

“Ou são fechadas e assustadas e não fazem nada, ou não pensam muito em voar – só estão aqui para terem a sua liberdade. Essas são realmente indisciplinadas e loucas.”

Rania Abou Youssef, 26 anos, assistente de bordo da companhia Emirates, baseada em Dubai, contou que quando foi para casa em Alexandria, no Egito, as suas primas mulheres, a trataram como uma heroína. “Faço isto há quatro anos, mas elas perguntam-me, sempre para onde fui, como foi e onde estão as fotos”, ela disse.

Muitas das jovens árabes que trabalham no Golfo Pérsico adoram a sua posição de pioneiras, modelos, exemplos para amigos e parentes mais jovens. Jovens que cresceram numa cultura que sobrevaloriza a comunidade, aprenderam a individualizar-se.

Para muitas famílias, permitir que uma filha trabalhe, ou até que viaje para o exterior desacompanhada, pode abrir espaço para o questionamento da sua virtude e ameaçar as suas perspectivas de casamento. Ainda assim, essa cultura está mudando, disse Musa Shteiwi, socióloga da Jordan University em Amman, Jordânia. “Estamos a observar mais e mais mulheres solteiras a irem para o Golfo ultimamente”, disse ele. “Não é muito comum, mas nos últimos quatro ou cinco anos isso tem sido um fenómeno sintomático.”

O desemprego, em todo o mundo árabe continua elevado. À medida que as redes de árabes expatriados nos países do golfo se tornam mais fortes e à medida que o uso do telemóvel e o crescente acesso à internet tornaram a comunicação internacional mais barata, algumas famílias aceitam melhor a ideia, e permitem que as suas filhas trabalhem no estrangeiro.

Alguns empregadores do Golfo afirmam direccionar o recrutamento para mulheres com valores familiares árabes em mente – ao contratar grupos de mulheres de uma cidade ou região específica, por exemplo, para que as mulheres possam apoiar-se umas às outras uma vez no Golfo. “Muitas mulheres fazem isso hoje porque tem a reputação de ser seguro”, disse Enas Hassan, assistente de bordo iraquiana da Emirates.

“As famílias têm a sensação de segurança. Elas sabem que se suas filhas começam a voar , e não vão ser atiradas para o mundo selvagem, sem protecção.”

Ainda assim, nem todos conseguem viver bem nos Emiratos, conta a jovem assistente. Até a paisagem – blocos e mais blocos estéreis de hotéis e prédios de escritórios com pequenas lojas e restaurantes para entrega no andar de baixo – pode contribuir para um sentimento de “peixe fora de água”.

Algumas jovens mulheres contam histórias de colegas assistentes, que simplesmente entraram escondidas em voos para os seus países de origem e fugiram, sem avisar à companhia aérea, empregadora.

As assistentes árabes de maior sucesso, contam elas, são geralmente aquelas cujas circunstâncias já as colocaram de alguma forma à margem das suas sociedades originais: jovens imigrantes árabes que sustentam a família após a morte do chefe da casa, por exemplo, ou algumas jovens viúvas e mulheres divorciadas que no fim, acabam sendo autorizadas a trabalhar no estrangeiro, depois de as suas perspectivas de casamento diminuírem.

Muito mais que outros trabalhos no Golfo, ser assistente de bordo torna-se difícil para as muçulmanas cumprirem as suas obrigações religiosas, como rezar cinco vezes ao dia e jejuar durante o Ramadan, observou a assistente egípcia. Ela espera usar uma hijab no futuro, “mas não agora”. Um sentimento de afastamento da sua religião pode , juntar-se aos sentimentos de alienação das comunidades muçulmanas conservadoras de casa. Mulheres cujo trabalho no Golfo sustenta uma família grande geralmente descobrem, para sua surpresa e decepção, que o trabalho as tornou inadequadas para viverem dentro daquela família.

“Uma grande amiga minha, da Síria, decidiu deixar a companhia aérea e voltar para casa”, contou a assistente egípcia. “Mas ela não consegue mais viver na mesma casa com a família. Os pais dela adoram o irmão e colocam-no em primeiro lugar, e ela nunca pode sair de casa sozinha, mesmo se for só para tomar um café.”

“Fica muito difícil para nós voltarmos para casa novamente”, conclui.

Fonte: Katherine Zoepf | Fotos: Tamara Abdul Hadi - Publicado em; http://www.meioaereo.com/

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